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Caminhos trilhados (ou amassados?)

por o que procuro, em 22.10.13

Cresci a ver a minha avó cozinhar, cozer pão, fazer enchidos.

Aquela casa fervilhava de tudo isso cada vez que regressava um dos filhos do estrangeiro ou eram alturas especiais como a Páscoa e o Natal.

 

Eu gostava especialmente da Páscoa, os folares de azeite, os biscoitos, tudo feito em casa.

Eram dias em que acordava às 7h da manhã já as vizinhas estavam lá em casa com a maceira de madeira a um canto da cozinha, cheirava a ovos, a azeite e a farinha. Vi-as horas a fio misturarem todos aqueles ingredientes, amassarem, como quem dá murros naquela massa infinita e finalmente taparem tudo com panos alvos, mantas quentes e punham tudo de volta da lareira.

 

Seguiam-se horas de conversa, a preparar os biscoitos, outros ingredientes, as mesmas mãos, os mesmos métodos. Depois era a procissão até ao forno, deitarem lenha lá dentro para aquecer, deixá-lo atingir a temperatura certa. Destapar a massa, cortá-la em unidades de forma a fazer os bolos, tendê-los ou dar-lhes forma, colocá-los na pá do forno, vê-los entrar naquele forno ainda com brasas quentes, fecharem a porta e tempos depois o regozijo de ver sair aqueles bolos de ovos, quentes, amarelos, perfeitos que emanavam perfume até à horta, onde o meu avô andava, porque levado pelo cheiro, aparecia sempre para "a prova do bolo".

 

Era o melhor forno da redondeza diziam e julgo que as melhores mãos para amassar os bolos, rudes, ásperas, sem afecto para connosco, mas com tanto amor por tudo isto que faziam, tanto que nunca vi ninguém sair descontente, era vê-las, as vizinhas e amigas, ao final do dia, partirem de seira à cabeça, recheada de bolos amarelos da cor do ouro e as mãos com sacos de pano cheios de biscoitos fofos e saborosos.

Ficava sempre a má vontade da minha avó, a rezinguice pelo trabalho que cada uma dava e pelo nada que deixava ficar em contrapartida, mas sempre a certeza de que para o ano seria assim novamente, sem tirar, nem acrescentar nada.

 

Foi isto que herdei, que me corre no sangue, este dom, de juntar água, farinha, sal e fermento e fazer crescer, pão, bolos e um sem fim de coisas boas, que me enchem a alma, a casa de cheiro e o estomago dos meus.

 

É nela que penso cada vez que peso, a farinha, que programo a maquina para amassar, são as gargalhadas delas que ouço quando tendo eu o meu pão, no silêncio da minha cozinha e é no sorriso do meu filho que a revejo de cada vez que me pede "pão da mãe com manteiga".


                                                                               


 

 

 

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